SUPERAÇÃO DO CIÚME PASSA POR INVESTIGAR SUA ORIGEM
É sempre possível investigar racionalmente – ao sentir ciúme – a origem do temor diante da ameaça de perda. Mais do quepossível, é necessário. Isto porque é preciso saber se o ciúme envolve algum valor positivo ou valor negativo. segundo Descartes, o ciúme tem caráter positivo quando se aproxima da noção de “zelo”, quando se trata de conservar algo de grande importância, como a riqueza ou a honra. será negativo quando se aproxima da avareza, do egoísmo ou de mera insegurança pessoal, explica carlos Matheus, doutor em Filosofia e professor titular do Departamento de Filosofia da Puc-SP.
Sendo positivo, o ciúme pode justificar uma ação destinada a impedir a perda. sendo negativo, cria a necessidade de buscar um valor equivalente ao qual se possa recorrer para substituir o que se está na iminência de perder. “Quando negativo, o ciúme pode ser decorrente de uma baixa auto-estima e, neste caso, a investigação deve começar pelo exame que o ciumento deve fazer de si mesmo. Ninguém está isento do ciúme – como uma paixão e como sofrimento – mas todos podem superá-lo buscando dentro de si algum motivo para atribuir a si próprio um valor equivalente àquele que se vê em risco, sob a ameaça da perda”, diz Matheus.
Quanto mais seguros nos sentimos a respeito de nós mesmos ou de quem somos ou do valor que temos, menos corremos o risco do ciúme. No entanto, sempre estamos sob o risco de perdas. Assim como toda perda entristece, viver pressupondo perdas significa uma vida bastante infeliz, explica o professor do Departamento de Filosofia da Puc-SP. Do mesmo modo, viver sob a pressão do ciúme é viver sem liberdade ou sob pressão. No fundo, todas as perdas são dolorosas e causam tristeza, mas saber superá-las é uma das grandes lições da Filosofia estóica.
Neste ponto, Matheus lembra as palavras de epiteto: “só somos livres nos ocupando das coisas que só dependem de nós” (Pensamentos, I). o ciúme, neste caso, ocorre quando sofremos por causas que não dependem de nós. A Filosofia, mesmo sem pretender ser edificante, pode indicar o caminho da sabedoria de que fala Aristóteles, mostrando como as paixões podem ser conduzidas pela “sabedoria prática”. (Ética a Nicômaco, X, 8).
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